Família alega negligência após morte de recém nascida no hospital São Donato

Médico e equipe de enfermagem negam negligência e afirmam que durante todo procedimento foi seguido protocolo preconizado pelo Ministério da Saúde

Num ambiente de muitas contradições, a recém nascida Vitória Valentina não teve mais que uma hora de vida após um parto muito difícil no hospital São Donato no último dia 23 de maio. Filha de Rudiney Sebastião Cardoso e Fabiana de Moraes, a menina teve insuficiência respiratória após o nascer e não resistiu. De um lado, a família acusa o médico de negligência e de outro a equipe técnica do hospital e o próprio médico se defendem alegando que apenas cumpriram o protocolo preconizado pelo Ministério da Saúde sem deixar de prestar o atendimento adequado.

OIçara acompanha o caso desde o dia em que o parto ocorreu. Após visitar a família moradora no bairro Vila Nova, a redação também foi ao hospital para ouvir os profissionais envolvidos no atendimento. No hospital, o portal foi atendido pela gerente de enfermagem Fabiane Felisbino, enfermeira obstetra e coordenadora do centro obstétrico Cláudia Copetti, o médico Flávio Giugno e a assessora jurídica Elis Andrielli.

A mãe da criança chegou ao hospital por volta de 18h45 daquele dia com pressão em 159/99mmHg, considerada alta em grau leve, conforme prontuário médico entregue à família. No atendimento, conforme relato do pai, ele teria comunicado ao médico que na manhã do mesmo dia havia passado pelo atendimento da médica que fez o pré-natal, Dra. Simone Anselmo Junkes, que escreveu que identificados sinais de alerta haveria a necessidade de ida imediata ao hospital e consequente contato com ela, conforme mostra a imagem ao lado do caderno de acompanhamento pré-natal assinado pela própria médica. A recomendação, segundo o pai, seria pela realização de uma cesárea em razão do histórico da mãe da criança e pelo quadro de pressão alta pelo que ela passou.

Aqui, começam as contradições entre a família e a equipe técnica do hospital. Rudiney, conforme exposto anteriormente, relata que solicitou ao médico que chamasse a Dra. Simone que, conforme acordo prévio entre família e a médica, faria a cesárea mas não teria sido atendido. “O médico não aceitou chamar a doutora Simone. Ele teria que fazer mas me disse que não chamaria. A médica que fez o pré-natal disse que era para pedirmos que ele a chamasse mas ele não quis de jeito nenhum”, relatou. “O outro profissional pode vir, mas quem tem que entrar em contato é a família”, relatou o médico, afirmando que não proibiu o chamado da outra profissional, porém apenas orientando que por motivações formais não poderia fazê-lo. Na sua versão, Rudiney chamou a médica por sua conta própria, após o médico tê-lo negado essa possibilidade.

Segundo o pai da criança, esse imprevisto fez demorar muito o atendimento prejudicando a mãe e levando ao descolamento de placenta que, por sua vez, pode ter gerado o quadro de insuficiência respiratória da criança. Conforme consta no prontuário emitido pelo hospital, o médico teria dito à família que faria uma cesárea apenas havendo indicativo para tal e que não era o quadro daquele momento tendo que aguardar a evolução. “O fato de ela já ter tido uma cesárea não é indicativo de uma nova cesárea. Pressão alta também não é”, relatou o médico.

Fabiana, a mãe da criança, informou que na chegada da médica ao hospital outro problema enfrentado foi a falta da preparação prévia da sala de cirurgia para a realização do procedimento. “Quando a doutora Simone chegou não tinha nada pronto. Eu ouvi a médica perguntar a um vice-diretor do hospital por que não estava tudo pronto pra ela fazer o parto”, comentou. “Ela (Dra. Simone) veio avaliar a paciente. Quando eu liguei para ela, ela não disse ‘estou indo para fazer a cesárea’. Ela iria avaliar a paciente”, contrapôs a enfermeira Cláudia, explicando o motivo pelo qual o hospital não teria deixado a sala de parto pronta para realizar o procedimento.

Chegando ao hospital, a Dra. Simone já iniciou os procedimentos para a realização da cesárea que ocorreu com extrema dificuldade segundo relato de Rudiney que, inclusive, acompanhou todo o procedimento. O nível de dificuldade foi tão grande que a médica solicitou a presença do Dr. Flávio para auxiliar na retirada da criança. Essa informação consta no prontuário indicando que o chamado foi às 20h30, porém, não houve a necessidade da intervenção dele pois instantes depois a médica conseguiu retirar a criança, conforme relato de Giugno no prontuário médico.

Segundo o pai, a demora para iniciar a cesárea motivada por aquilo que a família define como negligência do hospital pela falta de agilidade e sensibilidade em identificar aquilo que seria um quadro de cuidados especiais foi o principal motivo do descolamento da placenta. “O que ocorreu foi uma fatalidade. Uma quadro devastador de descolamento de placenta”, defendeu-se o médico, alegando que esse quadro não teve relação alguma com qualquer tipo de negligência.

Rudiney registrou Boletim de Ocorrência na delegacia de Içara e promete levar o caso adiante na justiça. “Eu já recebi esse boletim e já instaurei procedimento. A nossa medida enquanto polícia é solicitar ao órgão que fiscaliza a atividade a averiguação do caso o que eu já fiz ao Conselho Regional de Medicina”, explicou o delegado Rafael Iasco.

No hospital, conforme a gerente de enfermagem Fabiane, foi instaurada uma auditoria interna para investigar se houve equívocos da equipe de enfermagem e posteriormente será feito o mesmo para investigar se houve equívocos do médico. Contudo, a própria Fabiane, membro da equipe de auditoria, já antecipou no dia em que OIçara foi recebido pela equipe do hospital, que num primeiro momento não houve erros. “Pelo que vimos do prontuário, está tudo dentro do protocolo e das normas institucionais”, relatou. Isso indica que a auditoria tende a ser finalizada sem a conclusão de ter havido qualquer tipo de negligência.

A médica Simone também foi procurada pela reportagem, mas preferiu não se manifestar. A informação do hospital é que ela também será chamada para prestar esclarecimentos quando a auditoria chegar na etapa de investigar a atuação do médico Flávio Giugno.

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